O que você deixou de ser quando cresceu?
Eu costumo ter um pensamento recorrente sobre um homem que foi se desenvolvendo a partir de camadas sobrepostas ao longo da vida, e que num determinado dia percebeu o quanto estava preso dentro de si, e como tinha se moldado de uma forma que o impedia de ser aquilo que gostaria. É como engrenagens abandonadas que vão sucumbindo com a ferrugem, e que vão perdendo a sua função principal que é a de proporcionar rotação ou torque a uma determinada máquina, que dessa forma fica parada no tempo sem funcionar.
É claro que nessa analogia do homem moldado, ou engessado, como gosto de imaginar, existe um pouco de mim, que com o passar dos anos fui perdendo muito do brilho que tinha, me tornando uma figura opaca. É como o peixe dourado de água salgada (Coryphaena hippurus) que perde a sua cor vívida amarela e verde quando são capturados e mortos, ficando com uma cor verde acinzentada, sem aquele brilho lindo que possuíam quando nadavam vigorosamente atrás de cardumes de peixes menores.
Apesar de já ter refletido a pergunta várias e várias vezes na minha cabeça, e de ter encontrado um monte de coisas que deixei de ser quando me tornei um adulto, confesso que não sei se conseguiria escrever um texto coeso e resumido explicando tanto o que deixei de ser e o motivo pelo qual deixei de lado todas as coisas que gostaria de ter feito. Talvez seja o anacronismo de olhar outra época com os olhos de agora, e de certa forma ver tudo um pouco distorcido tornem essa missão um pouco difícil de fazer. Mas talvez, apenas por um instante, isso possa ser um grito interior, uma voz perdida no tempo dentro de mim, alertando que ainda é tempo.
Uma coisa interessante sobre essa pergunta é que ao refletir sobre a imagem daquela placa largada ali no meio da ponte, enquanto todos passavam ao seu lado, comecei a ter o impulso de voltar aqui e escrever, de literalmente me expressar sem fazer muitas correções de texto ou mesmo de ficar parando para pensar muito no assunto. É como se ao ver aquela imagem algo tivesse novamente acendido dentro de mim, como se alguma daquelas camadas tivesse feito um clic de quebra e aquelas engrenagens antes cheias de ferrugem parecessem ter se movido um pouquinho que seja.
Independente do que eu possa escrever aqui, do que eu possa imaginar sobre o que irão entender desse texto, a verdade é que não importa, porque no final cada um terá feito o seu próprio mergulho interno, refletindo e buscando respostas sobre o porquê deixou tanto de lado. Não sei se cada um de vocês sentirá algo acendendo dentro da cabeça, ou ouvirá um clic de quebra, o importante é que seja o que for que você sentir, tenha a coragem de ouvir e seguir em frente com o impulso momentâneo que surgir, e quem sabe, aí então, nós saibamos o que deixamos de ser quando crescemos e o que precisamos fazer.
Lindo e profundo. Amei esse retorno.
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