O Banho de Bica
Já contei aqui uma história que aconteceu comigo assim que entrei para a escola, precisamente no primeiro dia de aula no pré escolar, mas agora gostaria de avançar três anos depois daquele acontecimento do prato de laranja, e contar uma história de quando eu estava na alfabetização, e que passaria desapercebido não fosse a forma como aconteceu. O ano era 1982 e para qualquer criança que está na última série do pré escolar, copiar os mais velhos, das séries mais velhas era o padrão a ser seguido.
No meu caso, que tinha um primo e um irmão mais velhos, era quase uma obrigação fazer tudo que eles faziam, numa espécie de auto afirmação de quem eu estava me tornando, e principalmente de que eu também era capaz de fazer tudo o que eles faziam. Então veio a oportunidade, que era a exceção que era feita para alunos da alfabetização de poderem participar da escolinha de futebol de salão junto com os mais velhos. Não estava nem aí para o que aquilo de fato significava, o importante era estar junto dos mais velhos e fazer e copiar tudo que eles faziam.
É importante deixar registrado que sou o mais novo de quatro irmãos, sendo duas irmãs mais velhas, meu irmão e finalmente eu, e falo isso porque isso diz muito sobre o que é ser um irmão mais novo, de querer viver tudo o que os outros viveram, estão vivendo, e de certa forma de ter também o que eles tem. Nesse caso específico que estou relatando, estar com o meu irmão e meu primo participando da escolinha de futebol de salão era como ser promovido na idade, algo que hoje todos querem o contrário, de poderem voltar a ser mais novos.
Mas e a bica, o que tem essa história toda a ver com uma bica? É importante destacar que durante a pré escola eu estudava no período da manhã, e tínhamos que ficar restritos a um espaço cercado por um muro, que adorávamos fugir ao final do expediente só para que pudéssemos passear pelas demais áreas da escola. Já na escolinha de futebol de salão, que era no período da tarde, estávamos livres para percorrer qualquer área da escola, sem que fosse preciso fugir do espaço da pré escola, e sem que tivéssemos que dar qualquer explicação para professores e para as babás.
Era comum que meus pais viessem do trabalho para almoçar em casa, e nessas ocasiões levava uma das minhas duas irmãs (a mais nova) para a escola, que no caso dela era no período da tarde, e eu e meu irmão para a escolinha de futebol, pelo menos dois dias por semana, além de dar carona para meus primos. Essa era a rotina, e minha mãe sempre dizia para que os meus irmãos mais velhos ficassem de olho em quaisquer travessuras que eu "eventualmente" pudesse vir a fazer nesse período. Era preponderante que não fossemo chamados atenção por mal comportamento, daí esse vigilância dos irmãos.
Tá, ainda não falei da bica, mas irei falar agora. Num determinado dia, uma chuva daquelas caiu aqui na cidade, e como era de costume muitas ruas ficaram alagadas, mas mesmo assim fomos para a escolinha, pois minhas irmãs iriam ter que ir para a aula e eu e meu irmão não iríamos perder um dia da escolinha. Pegamos meu primo no caminho e fomos diretamente para a escola. Chegando lá começamos a brincar e jogar na quadra enquanto esperávamos o professor de futebol de salão, que nesse dia não viria por motivos, digamos, climáticos.
Então vem a pergunta, o que fazer com um monte de crianças numa quadra, num dia chuvoso e sem ninguém para vigiar? Bom, pelo que me lembro, dispuseram uma bola e deixaram que nós nos virássemos por conta própria na quadra. Lembram do que falei sobre meus irmãos ficarem de olho em mim, pois é, nesse momento eu só tinha um me observando, e meus olhos estavam fixados numa bica, cuja água caia com força e formava uma piscina ao seu redor. Aquilo foi pura hipinose, algo naquela situação parecia me chamar, quase como se tivesse uma força invisível me puxando para aquele local.
Como diz o ditado, "devagar se vai ao longe", comecei a caminhar em direção da bica, cada vez mais perto, e notei que outros meninos também olhavam com a mesma vontade, mas apenas um seguiu em frente e entrou debaixo da bica e começou a se molhar. Como me referi anteriormente, aquilo era pura hipinose, e quando me dei conta já estava com os pés dentro d'água mas ainda sem estar debaixo da bica. Quando olhei ao redor me dei conta do meu irmão e primo me olhando como quem quisessem perguntar para mim, "que p... tu tá fazendo aí?". Antes que eu pudesse imaginar uma resposta entrei de cabeça debaixo da bica.
A medida que eu e o outro contraventor nos molhávamos e brincávamos naquele local, não percebemos que o horário do recreio tinha começado, e que a platéia tinha aumentado, assim como o número de participantes debaixo daquela bica. Alguns que passavam pelo local ainda chegavam e falavam, "esse não é o irmão de fulana? (minha irmã)". Sabe quando a gente se pergunta, ao ver um episódio do mundo animal, de como é possível um animal conseguir reconhecer o chamado da mãe naquela confusão toda da manada, pois é, mesmo no êxtase do banho, pude reconhecer uma voz feminina dizendo que mamãe vai ficar p...da vida com isso, e que eu iria levar uma bronca por conta da minha audácia.
Lembro que gradativamente fui voltando a consciência, e me dando conta do que eu estava fazendo, e principalmente das consequências dos meus atos. Agora eu tinha um dilema, eu precisava me secar o quanto antes, e torcer para que o relatório dos meus queridos e amados irmãos mais velhos omitissem 98% dos fatos, me deixando livre de quaisquer inquéritos perante a justiça paterna e materna. Confesso que nenhum advogado teria muito o que fazer no meu caso, já que tudo aconteceu em flagrante de delito, e sob a ótica de várias testemunhas, sendo que três delas, de acusação, moravam no mesmo lugar que eu.
Depois da adrenalina do banho, e da chuva ter diminuído, lembro de ficar sentado num banco, espremendo a camisa e as minhas meias na falsa esperança de que aquela quantidade de água desaparecesse das minhas roupas. Só para deixar claro, não havia naquela época roupas de materiais sintéticos como as que usamos nas academias, que basta uma espremida e tudo parece estar seco. Eu usava uma camisa de um time brasileiro, cujo algodão deve ter sido feito para um clima polar, pois por mais que eu espremesse a camisa ainda permanecia molhada o suficiente para me entregar. E para aumentar minha agonia, passa minha irmã e diz não vai adiantar, ela (mamãe) vai perceber.
A noite chegou e eu aguardava o momento de encarar meu julgamento, ali mesmo no carro, três promotores de acusação, nenhum advogado de defesa para explicar como era linda aquela bica, e a certeza e uma bronca e um castigo. Para minha sorte, as chuvas não cessaram, e as ruas alagadas pareciam estar sendo mais importantes do que simples fato de eu ter me molhado por inteiro, no meio da escola. Morávamos num bairro conhecido pelos alagamentos, e chegar em casa de carro com a água na metade da porta não seria fácil, logo o meu caso passou a ter um importância secundária. Nessa ocasião, o nosso carro chegou até mesmo a boiar, e de ficarmos falando tá entrando água no carro.
Ao chegarmos em casa sãos e salvos, e secos, menos eu é claro, tudo que havia ocorrido na escola tinha ficado nas águas acumuladas das ruas, e ninguém mais pareceu dar importância ao fato de eu ter me aventurado num banho de bica em plena escola, a vista de todos. O curioso é que essa história ficou perdida na minha memória por anos, e agora, relembrando os detalhes daquele dia, vejo como foi bom, prazeroso mesmo, ter dado vazão a um impulso quase que primitivo, sem ponderar as consequências, que naquele caso só afetariam a mim mesmo. Para ser sincero, dessa história eu lembrava mais do carro boiando com todos nós da família do que do banho de bica.
Gosto de perguntas porque elas nos fazem refletir sobre muitos aspectos que não prestamos a devida atenção, então deixo essas para serem respondidas. A questão central aqui dessa história é que durante nossas vidas passamos por vários momentos como esse, e tirando um pouco de fora as questões morais, quantos momentos de pura felicidade deixamos de viver justamente por pré julgamentos? Quantas bicas se passaram em nossas vidas e não tivemos a coragem em entrar de cabeça por medos infundados? Lembre-se, nunca é tarde para o seu banho de bica, seja qual for, metaforicamente, a bica que você deseja mergulhar de cabeça. Pense em você, não prejudique ninguém e faça com coragem, e aí quem sabe você será mais feliz.

Nunca é tarde para esses banhos de bica...
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