Uma Carta Para Mim
As viagens no tempo sempre foram vistas como bons temas para livros e filmes de ficções científicas, com reviravoltas mirabolantes e situações engraçadas, onde determinadas ações modificadas no passado fariam com que toda a realidade do presente no qual vivemos fosse alterada. Quem nunca teve o pensamento de se imaginar voltando num passado qualquer da própria vida e fazendo algo diferente na esperança de que erros fossem corrigidos ou situações modificadas? Mas e se ao invés de voltar ao passado para mudar algo, nós pudéssemos apenas nos enviar uma carta, apenas uma carta, para conversarmos com o nosso eu criança de 10 anos, e apenas escrever algo que não modificasse o nosso presente completamente, o que você escreveria?
Esse talvez seja um dilema de muitas, talvez milhões de pessoas no mundo inteiro, que todos os dias se levantam para trabalhar, se olham no espelho e não se reconhecem mais, não se recordam de quem eram 10 anos atrás, dos sonhos que tinham quando crianças e das coisas que realmente faziam sentido e que nos moviam em direção a realização dos nossos sonhos. Vivemos em uma época onde existe um culto da felicidade, onde precisamos ser felizes acima de tudo, em todos os locais e com todos que nos cercam, mostrando que estamos bem sempre. Basta olhar nas redes sociais que temos atualmente, e perceber que todas funcionam justamente com base em publicações de imagens onde todos estão sempre sorrindo, em poses preparadas e com textos explicativos que enaltecem aquele momento.
Em que época e circunstância de nossas vidas deixamos de ser mais autênticos com nós mesmos, e de mostrar o que realmente estamos sentindo e o que de fato desejamos para nossas vidas? É fato que muitas pessoas são moldadas desde cedo a agirem conforme determinados padrões sociais, e isso acaba sufocando quem verdadeiramente somos no nosso íntimo, e esse talvez seja o primeiro passo para
Eu sempre imaginei a linha da vida como uma espécie de ampulheta onde o tempo presente é exatamente a parte mais estreita por onde a areia tem que passar de um ponto para o outro, e que teria a parte de cima como o nosso passado, com as bagagens e experiências de vida, e a parte de baixo como o futuro que vai acontecendo conforme eventos a ações ocorridas e iniciadas lá trás em alguma parte da nossa vida. Mas e se não houvesse mais areia para passar por esse funil que é o presente, o que aconteceria com o nosso futuro? Provavelmente seria um futuro estagnado e sem perspectivas, onde estaríamos condenados a viver como se estivéssemos no automático, como robôs que repetem uma programação pre estabelecida. Não teríamos mais o combustível de ações passadas para nos mover adiante na nossa linha da vida, evoluindo com as experiências vividas.
Mas e a carta, o que escreveríamos para nós mesmos com 10 anos de idade? Não é uma ciência exata, e o que aparentemente parece uma coisa simples de ser feita na verdade é um verdadeiro dilema entre a razão e a emoção, pois uma semente plantada de forma errada no passado não dará frutos no futuro, ou poderá se tornar mais uma fonte de problemas para nós mesmos. No meu caso, se eu pudesse escrever uma carta para mim, me imaginando conversando comigo frente a frente, diria que eu deveria ser o máximo fiel aos meus sonhos, que deveria ser perseverante ao persegui-los pois nada acontece do dia para a noite e que ao escutar as pessoas de quem confio deveria sempre ponderar as palavras e conselhos ditos, mas não esquecer nunca de quem eu sou de verdade e principalmente dos meus sonhos. Sei dessa impossibilidade que é escrever essa carta, mas talvez esse exercício nos faça recordar quem éramos e que não lembramos mais.
Existe uma música de Milton Nascimento que gosto muito, e que sua letra resume bem o que quis escrever aqui hoje, que sempre será atual e que coloco aqui para lembramos sempre que ainda temos uma criança vivendo dentro de nós.
Há um menino, há um moleque
Orando sempre no meu coração
Toda vez que o adulto balança
Ele vem pra me dar a mão
Há um passado no meu presente
O sol bem quente lá no meu quintal
Toda vez que a bruxa me assombra
O menino me dá a mão
Ele fala de coisas bonitas que
Eu acredito que não deixarão de existir
Amizade, palavra, respeito
Caráter, bondade, alegria e amor
Pois não posso, não devo
Não quero viver como toda essa gente insiste em viver
Não posso aceitar sossegado
Qualquer sacanagem ser coisa normal
Bola de meia, bola de gude
O solidário não quer solidão
Toda vez que a tristeza me
Alcança o menino me dá a mão

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