O Prato de Laranja Picada de Cada Um



O que é um prato de laranja picada em cima de uma mesa de sala de aula de uma turma de maternal? Talvez para a maioria, a grande maioria, 99% das pessoas, será apenas um prato de laranja picada, mas para mim foi um momento divisor de águas, onde pude ver pela primeira vez que eu estava por minha conta, que dali por diante eu teria que improvisar, adaptar e superar quaisquer obstáculos que surgissem na minha frente.

O ano era 1979 e com 4 anos eu estava no meu primeiro dia de aula, especificamente no maternal, convivendo pela primeira vez longe de casa e fora do olhar constante daqueles que eu conhecia e que eu julgava serem meus protetores. Para ser bem sincero eu estava simplesmente apavorado com tudo aquilo, e foi bem difícil parar de chorar e me acalmar, mas nada comparado com o prato de laranja picado na hora do lanche.

Quando a hora do lanche chegou, eu já estava conformado com o que imaginava ter sido o meu abandono naquele local, e mesmo com as "tias" (era assim como nós chamávamos as professoras) tentando nos consolar de que tudo estava bem, havia uma luz de alerta na minha cabeça. Eu estava certo, pois nesse momento as merendeiras começaram a passar pelo corredor levando os lanches para as salas das outras turmas.

Acho que o ser humano é um esperançoso por natureza, pois mesmo com essa sensação de perigo anunciado ligado na minha mente, cheguei a imaginar que com a barriga cheia, tudo aquilo poderia passar, que o meu mal fosse fome. Lembro de ficar ali sentado esperando ser servido, com uma cara de que tudo iria mudar, mas tudo ruiu, quando vi o que tinha meu prato e nos dos coleguinhas de classe.

Nunca fui de comer frutas, mesmo com meus pais sempre nos incentivando a comer. Aquele foi um momento crítico e eu tinha que improvisar, adaptar e superar. Tratei logo de chamar a "tia" e dizer que não gostava de laranja. Ela insistiu para que eu comesse, que meus coleguinhas estavam adorando e que eu iria gostar também. Bom, problema deles, mas eu não gosto. É claro que não pensei isso com 4 anos, porém essa era a sensação.

Ali, naquele instante, vi que nada seria como nos 4 primeiros anos da minha vida, pois a "tia", aparentemente paciente e preocupada comigo, disse que eu só sairia da sala quando tivesse comido todo o meu prato, e que eu estava sendo malcriado. Comecei a ver um a um dos meus coleguinhas deixando seus pratos vazios e saindo...o desespero começou a tomar conta e o choro começou e vir novamente. Contudo nada abalava a decisão da “tia” naquele momento.

Todos saíram de sala menos eu e o prato de laranja, que ficamos ali nos olhando naquela agonia sem fim, tentando entender quem iria vencer aquela batalha. Para a minha salvação e do prato de laranja, duas cuidadoras vieram fazer a limpeza da sala e me viram ali naquela angústia e desespero e me perguntaram o motivo de ainda estar dentro da sala enquanto as outras crianças estavam se divertindo lá fora. Expliquei a situação como pude e lembro que uma delas disse que eu poderia sair, mesmo sob protesto da outra.

"Gato escaldado tem medo de água fria" e por via das dúvidas ainda fiquei ao lado da porta. Não sai imediatamente para o pátio pois se a "tia" aparecesse e perguntasse pelo prato de laranja picada, eu correria para dentro novamente. Bom, juridicamente, já não havia mais provas, se eu comi ou não. Bem, aquele dia terminou servindo de aprendizado, principalmente, no que se refere à hora do lanche. Eu precisava encontrar uma forma de vencer o prato de laranja picada e quaisquer outras "iguarias" que pudessem aparecer na minha frente.

Os dias se passaram e ao explorar mais o ambiente que ficávamos, constatei que na parte de trás das salas de aulas geralmente ficavam cheias de comidas, que outros “coleguinhas” jogavam fora e eu não sabia. Logo, eu não era o único e aquela poderia ser uma alternativa para o meu problema do lanche. Passei então a sentar no fundo da sala onde a parede era de tijolos vazados e possibilitava que eu pudesse “desovar” tudo aquilo que não fosse do meu paladar, dessa forma consegui enganar a “tia”. Além da técnica da “desova pelos buracos na parede”, descobri a artimanha da “partilha”. Assim, eu esperava que alguns dos meus coleguinhas saíssem primeiro para que eu pudesse partilhar parte da minha cota de lanche com cada um. Assim, estando livre para sair. É importante destacar que durante meu período de pré-escola nunca fui pego durante o processo de "desova ou partilha" e muito menos coloquei outro coleguinha em situação difícil ao distribuir comida em seus pratos.

O episódio já faz algumas décadas, mas me lembrei desse fato para trazer uma questão principal que ela me ensina: nossa capacidade de improvisar, adaptar e superar diante dos obstáculos que a vida nos impõe...mesmo quando ainda somos muito novos para entender sobre o que é um problema de verdade. Afinal o que é aparentemente um problema para uns, como um prato de laranja picada, para outros, nada mais é do que simplesmente uma laranja picada. Pois bem, que possamos ter determinação, dedicação e disciplina para nos livrarmos de quaisquer problemas ou dilemas que a vida nos oferece, afinal se uma criança de 4 anos consegue, qualquer um consegue, basta olhar bem ao seu redor.

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